quinta-feira, 19 de março de 2026

A vida da crônica

Já andaram por aí anunciando a morte da crônica. Eu gostaria de ter ido ao velório. Tenho imenso carinho por ela. Provavelmente precisaria viajar até o Rio, pois com certeza era lá que vivia. (Talvez eu só pudesse enviar flores. Sabe, quem é de São Paulo não tem permissão de chorar em outra cidade; ainda mais no Rio.) Pois essa história da morte da crônica me levou a pensar numa outra história, uma escrita pelo Lima Barreto.

Um sujeito estava sendo carregado para o cemitério, mas as ruas estavam péssimas, cheias de buracos e pedregulhos. Num certo trecho do caminho, o caixão chacoalhava tanto que o defunto ia de um lado pro outro, até que derrubaram o esquife, o que fez o morto ficar em pé. Irritado, o morto, agora vivo, berrava sua fúria contra o prefeito que não o deixava descansar; teria que voltar à vida para enfrentar uma esposa insuportável e um chefe que sofria de hemorroidas. 

Esse Lázaro do Lima Barreto, meus amigos, pode ser a crônica. Não digo que seja possível balançá-la; muito menos que acordaria nervosa. Seria possível dizer que… talvez os amigos que levavam o caixão… Ou mesmo que o prefeito… Desisto. Topei o pé nessas duas coisas - a morte da crônica e o Lázaro - e não posso juntá-las. Vou seguir outro rumo, o leitor entenda o que quiser. 

Mais de um sábio já disse que a crônica tem no cotidiano sua matéria-prima, seu motivo par excellence; que para ser bom cronista é importante observá-lo de maneira única, original; que uma pessoa na rua usando bengala pode ser a origem de uma pequena obra-prima. Não duvido dos sábios. Quem sou eu! Eu gostaria de acrescentar alguma coisa nesse caldo. 

Talvez a crônica não seja sobre o cotidiano. Talvez a crônica use o cotidiano. O dia a dia é um galpão de metáforas e imagens que o escritor tem ao alcance da mão. Funciona assim como um tipo de mitologia. A viúva na praia é uma nova Vênus; o padeiro, um Hermes; o pescador, um Poseidon etc etc. Já pensou? Quando o cronista diz “O Sol regava de luz as ruas da cidade”, ele não está falando nem de Sol, nem de ruas, mas sim de Apolo, em sua imensa sabedoria, que se oferta aos mortais em luta por suas vidas. O exemplo não é ótimo, mas a intenção não é tola. 

Para ser mais exato, eu deveria ter escrito lá atrás que algumas crônicas falam sobre o cotidiano, outras usam o cotidiano. Algumas de fato falam apenas do velhinho de bengala atravessando a rua. Outras, as melhores, transformam o velhinho em Cronos, Jesus Cristo ou coisa parecida. E pela alquimia misteriosa das palavras, o velhinho se torna um nosso conhecido, um querido em nossa imaginação, capaz de fazer a gente olhar para todos os velhinhos com outros olhos, de ter raiva da velocidade dos carros e das calçadas mal cuidadas, dando-nos um instante de prazer com a sensação de que, por um breve momento, fomos capazes, através do velhinho, de abraçar a vida e de sermos abraçados por ela. Ele então se torna um ente querido que, pelo poder de certas palavras, sem aviso e sem nos darmos conta, se levantou do caixão para viver em nossa vida de novo.

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