A palavra “inefável” tem um quê de coisa antiga: é simpática e bonita. Sem querer forçar demais, sinto que ela dá a sensação de um doce na boca. Não consultes dicionários. Inefável está aqui exatamente no sentido que lhes dão, “que não se pode exprimir por palavras; deslumbrante; delicioso; encantador”. O motivo de colocar a elegante senhora nesta folha é que encontrei com ela na rua, ali no centro de São Paulo.
É meu costume andar por lá no sábado de manhã. Gosto dos salgados que dão azia e de deixar algum dinheiro nos sebos. Mas é na Mário de Andrade que eu gasto um tempão. Não sei se é a parte de fora do prédio com seu jardim humilde, ou sua cerca baixa e seus vidros elegantes da fachada que me atraem, ou se é tudo isso, sei que a Mário de Andrade tem um efeito em mim. Passar horas ali me lembra momentos felizes de uma juventude impossível e eu provavelmente desejo revivê-las. Mas por ora eu só quero deixar claro que estar ali é um enorme prazer. Já viu como o espaço lá dentro é confortável? A simplicidade das estantes, com espaço entre os livros, a luminosidade das mesas de estudo, o conforto das cadeiras - um deleite.
Ontem, por acaso, decidi sair da biblioteca e conhecer uma livraria famosa que abriu ali perto, Megafauna. Andei uns poucos metros e já estava na área comum dos comércios, lugar que achei esquisito: tinha a praga da construção de um prédio residencial, que é só o que se faz nessa cidade; o Copanzinho Bar, devidamente cercado; e a tal livraria. Confesso que a imaginava maior, bem maior, até pelo nome. Olhei alguns livros, procurei outros. Mas o ambiente… o ambiente tinha o nariz empinado. Não sei como dizer melhor. Talvez o jeito de falar das pessoas, talvez o olhar cansado dos vendedores, talvez a barafunda de perfumes, talvez o fato de que ali havia mercadorias e não livros exatamente… E então me dei conta do algo inefável que me fez gostar mais ainda da Biblioteca Mário de Andrade.
Voltei para lá. Passei pelo corredor de vidro e cheguei, aliviado, na sala de leitura onde as pessoas dormem, olham celular e estudam. Eram pessoas simples e queriam apenas desfrutar o conforto da biblioteca. Pessoas simples em um ambiente feito para leitura. Tem algo nisso de inefável.
Um espaço em que não estamos sitiados por mercadorias, em que não precisamos pegar o mundo com dinheiro; um espaço delicioso em que de repente, perigosamente, podemos até sonhar. Eu se fosse Deus faria do mundo uma biblioteca Mário de Andrade. Mas em São Paulo, já dizia Mano Brown, Deus é uma nota de cem. O que me faz pensar que talvez a biblioteca seja o oposto, seja… não ouso dizer. É inefável.
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