domingo, 1 de março de 2026

E a poesia?

E o que aconteceu com a poesia, hem? Anda ruim mesmo ou o problema sou eu? Estou para a segunda, sem ironia. Minha expectativa é alta demais: talvez eu espere que a poesia me emocione, me diga verdades, me traga revelações, torne as palavras sublimes, qualquer coisa assim, meio boba, meio emotiva. Será que me acostumei com os poetas do passado? Leio sempre o Bandeira, a Cecília, o João e, claro, o Carlos e o Fernando. O diabo é que quando pego pra ler algum poeta de hoje… é tão frustrante… os primeiros versos já me cansam. Por que será? 
    
Eu ando remoendo esse osso há algum tempo. Tenho hipóteses. A primeira: a leitura que faço dos poetas do passado é acompanhada por um pessoal inteligente e culto, como Antonio Candido, Alcides Villaça e Carlos Secchin. Eles fazem a leitura de poesia parecer a experiência intelectual mais asombrosa que um ser humano pode ter. Agora, quando se trata dos novos, fico sem companhia. Não tenho nenhum crítico que leia para mim a poesia do século 21. Talvez seja ignorância de minha parte. Talvez ande por aí um novo Antonio Candido e eu ainda não dei por ele. Ou o problema é com as editoras, que não encontram o novo Candido. Não, com certeza não. Sou eu o problema. Mais uma culpa nesse “embrulho que carrego comigo”. (Candinho, se estiver lendo estas mal traçadas linhas, me mande uma carta.) (Vi agora que na minha lista de críticos não aparece nenhuma mulher. Poderia ter escrito Walnice Nogueira ou Yudith Rosenbaum… mas vai ficar assim. Segue o embrulho.)  
    
Segunda hipótese: talvez falte “engenho e arte” aos poetas atuais. De fato, não vejo nenhum deles evocando as musas, bajulando Apolo, ou organizando um encontro ao pé de algum morro com nome grego. Também não os vejo andando com alguma arte poética debaixo do braço, ou escrevendo com algum volumoso dicionário em cima da mesa. Mas eu também não me vejo comprando seus livros e frequentando seus jantares e saraus. Seria cômodo lamentar a falta de talento dos novos poetas, balançar a cabeça com ar saudosista e dar de ombros a todos eles: está aí o problema, a poesia morreu porque os poetas atuais são uns pulhas. Essa hipótese, porém, soa amarga, rabugenta e até um tanto reacionária. Credo.
    
Por fim, pode ser que a poesia continue viva como sempre, fresca como nunca, belíssima em uma roupa nova. Pode ser que esteja dançando em outro ritmo, bailando em outra festa. Numa letra de rap, em alguma rede social (duvido muito), ou em algum bar, na voz de um rapazinho sem dinheiro. Talvez ela tenha se cansado de tantas explicações e eu, por outro lado, tenha tomado um gosto imenso por elas. Fazer o quê? Baila, poesia, baila.    

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