Não tem jeito mais atual de entender a poesia do Augusto dos Anjos do que colocá-la frente a frente com o discurso religioso. É preciso imaginar nosso poeta paraibano, com sua magreza tímida, num estúdio branco, sentado diante de um microfone e de uma cadeira vazia, cercado de padres, pastores e rabinos: 1 poeta materialista contra 20 religiosos. Pensando bem, creio que Augusto não merece essa tortura. Já pensou se um dos pastores é o Malafaia? Credo.
Mas Augusto talvez sentisse certo prazer, um prazer quase sádico, em fazer uma poesia que coloca de ponta cabeça a religião cristã. Consigo ver a raiva no rosto do Frei Gilson, se por algum milagre ele ouvisse os versos:
Que horror! Por séculos a Igreja prega que somos filhos de Deus, que precisamos do seu amor, que existimos para sua glória etc etc etc etc, para vir esse sujeitinho dizer, com ironia, que não somos filhos de ninguém, somos apenas resultado do acaso, uma sopa de moléculas elementares, sem nada de especial!? Pior, está ele dizendo que estamos desamparados num universo indiferente sem ninguém para dar sentido a nossa vida!? ㅡ A resposta é sim. Foi isso mesmo que ele disse, Frei Gilson.
Mas Augusto talvez sentisse certo prazer, um prazer quase sádico, em fazer uma poesia que coloca de ponta cabeça a religião cristã. Consigo ver a raiva no rosto do Frei Gilson, se por algum milagre ele ouvisse os versos:
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
monstro de escuridão e rutilância,
sofro desde a epigênesis da infância,
a influência má dos signos do zodíaco.
Que horror! Por séculos a Igreja prega que somos filhos de Deus, que precisamos do seu amor, que existimos para sua glória etc etc etc etc, para vir esse sujeitinho dizer, com ironia, que não somos filhos de ninguém, somos apenas resultado do acaso, uma sopa de moléculas elementares, sem nada de especial!? Pior, está ele dizendo que estamos desamparados num universo indiferente sem ninguém para dar sentido a nossa vida!? ㅡ A resposta é sim. Foi isso mesmo que ele disse, Frei Gilson.
O que pode a bela poesia de Augusto contra os perdigotos do Malafaia? O verme que “anda a espreitar meus olhos para roê-los” é a imagem oposta do Salvador que olha do céu a alma obediente, aguardando-a de braços abertos no paraíso. O verme quer apenas roer, quer engordar com a nossa carne, quer beber o nosso sangue para manter viva a sua existência infame e parasitária. É difícil lutar contra os vermes.
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